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“PROJETOS OLÍMPICOS x ATLETAS OLÍMPICOS”

Liliana lohmann  é Técnica do Santa Mônica Rio e professora do Colegio Militar do Rio de Janeiro
Liliana lohmann

  Venho observando durante minha carreira atlética e depois como técnica de Atletismo os inúmeros projetos olímpicos que nosso país desenvolveu ao longo de pelo menos duas décadas. Gostaria de tecer alguns comentários que possam somar as discussões das pessoas que dirigem e/ou estejam envolvidas com o desenvolvimento e incremento de propostas e projetos de Atletismo para a cidade do Rio de Janeiro com vistas a Olimpíada de 2016.


Creio não ser uma verdade incontestável, mas nunca se deixou de apoiar o desenvolvimento de Projetos de Atletismo com a pretensão de formar atletas Olímpicos em nosso país. Ao contrário do que muitos pensam não creio ser a falta de projetos o ponto “X” das nossas dificuldades em termos de bons resultados no último campeonato mundial de Atletismo como foi postulado na imprensa e por alguns comentaristas e dirigentes do Atletismo Nacional.


Entendo que a execução desses projetos ditos “Olímpicos” acabam por ser extremamente imediatistas. Quero dizer com isso que:
Próximo a Olimpíada, Panamericano ou Campeonato Mundial, nosso país propõe e executa atividades voltadas para descoberta de talentos, começa o trabalho, muitos profissionais empenham-se em realizá-lo, depois por estar-se muito próximo destas competições, não conseguimos angariar o esperado. Os talentos surgem, mas ainda não estão no momento adequado de resultado de alto nível. Acontece então o abandono  por parte dos empresários e políticos ou a diminuição da aplicação de valores e materiais nos projetos, até que os mesmos são abandonados. Com a não continuidade de esforços com aquele grupo recém descoberto o tempo passa, então próximo a outra competição, novamente incrementa-se um novo empenho político, faz-se mais uma vez os mesmos procedimentos e as conseqüências são as mesmas. Com isso digo que, será que podemos compreender que o que falta aqui é a continuidade de esforços sérios na direção de pelo menos duas décadas ou mais de continuidade nos mesmos projetos? Ou seja, como são realizados em grandes potências esportivas pelo mundo!


Outro fator extremamente importante a ser relatado e considerado diz respeito a faixa etária desses projetos, geralmente prioriza-se os pré-adolescentes e adolescentes. Por um tempo eles podem participar e treinar, mas chega-se a um momento decisivo em que permanecer treinando se contrapõe a ter-se salário e auxiliar muitas vezes as famílias. O problema é fundamental, pois como queremos ter atletas com maior experiência e fruto de anos de treinamento se em determinado momento eles deverão contribuir essencialmente com a renda familiar? Como falar de massificação do Atletismo e esquecermos que o problema “social é fundamental” para a continuidade da prática desses atletas? O esporte é para a vida como um trabalho a médio e longo prazo. Pensamos em o que fazer com um grupo de pessoas que se mantém no esporte (Atletismo) e depois não tem formação profissional e são considerados marginais a sociedade? Evidencia-se que muitos abandonam e seguem, quando muito, a vida escolar, ou seja, ainda conseguem-se, em algum ponto do percurso a valorização e o apoio de determinadas instituições escolares com bolsas de estudo. Isso sem dúvidas permite a algumas famílias manterem seus filhos/atletas amadores em treinamento pois, apesar de tudo, daí pode-se ter alguma justificativa para permanência deles/as nos treinamentos e para os gastos com transporte.


Outra questão que me chamou a atenção é a de que “não termos profissionais capacitados para conduzirem nossos atletas de ponta” o que é uma inverdade.  Além disso, comenta-se em trazerem-se pessoas de fora para assumirem o nosso trabalho, como se esse fosse o real problema. Nunca se investiu tanto na formação e capacitação de técnicos no Brasil. Inúmeros são de ordem internacional, viajam e recebem auxílio da Confederação Brasileira. Fica evidente, porém que poucos podem se sustentar apenas com o salário de Técnicos de Atletismo. Normalmente trabalham em dois ou três lugares e fazem desta modalidade a sua cachaça, retirando e doando auxílio aos seus pupilos. Permanecem trabalhando muitas vezes sem carteira assinada.  O que dizer dos clubes que deveriam profissionalmente responsabilizar-se pelos profissionais que atuam em suas representações, muitos estão falidos e deles não podemos contar com muito apoio. O Atletismo como modalidade amadora onera as folhas de pagamento impossibilitando a viabilização profissional para atletas e técnicos. Será que alguns puderam perceber o quanto se faz necessária a valorização do emprego desses técnicos? Para podermos ter atletas de alto nível precisamos de técnicos disponíveis para planejar e executar o trabalho!


De posse dessas pequenas exposições concluo dizendo que: os atletas brasileiros que chegam a idade adulta competindo são uma minoria de heróis, os técnicos que atuam nas diversas categorias são também heróis abnegados,  e o que dizer dos dirigentes cariocas que se mantém insistentemente tentando dar as melhores condições, são maravilhosos sonhadores que como todos nós, entendemos que o “Atletismo” é  fonte de ascensão para muitos desses jovens. Espero que de alguma forma essa mensagem possa contribuir para uma análise mais ampla dos problemas pelos quais passamos.

Rio de Janeiro, 18/10/2009

Liliana lohmann
Técnica do Santa Mônica Rio
Professora do Colégio Militar do Rio de Janeiro